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Home office é sinônimo de liberdade?

A prática garantiu a continuidade de trabalhos durante a pandemia, mas ainda precisa de ajustes

Com a chegada da pandemia do novo Coronavírus, diversas empresas perceberam a necessidade de proteger seus empregados sem que o trabalho parasse: o home office é introduzido de vez na rotina da população cujas funções podem ser executadas de forma remota. Infelizmente, a implementação do modelo ocorreu de forma forçada tanto para a empresa, como para o colaborador. Ninguém se preparou adequadamente para isso.

Mesmo diante de uma adaptação repentina, parece que o home office vem sendo, de maneira geral, bem aceito pelas empresas e que, em um cenário pós-pandêmico, poderá continuar fazendo parte da rotina dos colaboradores. Com a chegada deste modelo de trabalho, a flexibilização da jornada passa a ser discutida com mais intensidade na vida dos colaboradores.

O HOME OFFICE

Conhecido também como trabalho a distância, trabalho remoto ou escritório em casa, o home office surgiu muito antes da pandemia do novo Coronavírus. As primeiras aparições deste modelo ocorreram nos Estados Unidos, quando as pessoas perceberam que podiam trabalhar fora do escritório tradicional, não se limitando necessariamente às suas casas, mas indo até coworkings, cafés e livrarias - o conceito inicial era o de trabalhar em um lugar alternativo ao escritório da empresa, qualquer local com um notebook, energia elétrica e internet de alta velocidade.

Conforme a década de 2020 se aproximava, algumas poucas empresas já implementavam o home office em sua rotina de trabalho: o colaborador compareceria ao escritório 2 ou 3 vezes durante a semana e o restante do seu expediente seria de forma remota, em sua própria casa, e a empresa adotaria um sistema híbrido, em que os colaboradores que conseguissem exercer suas funções em casa poderiam trabalhar parcialmente em suas residências. Na pesquisa Workforce of the Future da Cisco de 2020, 58% dos funcionários esperam trabalhar em casa pelo menos 8 dias no mês após a pandemia do novo Coronavírus.

A jornada de trabalho deve variar de empresa para empresa - algumas exigirão mais tempo no escritório, outras exigirão menos. Em relação a equipamentos, a tendência é que as próprias companhias forneçam os materiais necessários para o trabalho à distância, mas ainda carecemos de uma regulamentação específica sobre o tema. O Ministério Público do Trabalho criou uma nota técnica com 17 recomendações para o trabalho fora do escritório, mas estas não possuem força de lei, na medida em que qualquer legislação sobre o assunto deve ser criada pelo Congresso Nacional, de acordo com especialista do Direito.

Apesar de parecer que o home office veio para ficar, ainda não estão claras as diretrizes dessa prática. Mas, desde já, os colaboradores parecem gostar da ideia: ainda na pesquisa da Cisco com cerca de 25 mil profissionais de 27 países, inclusive o Brasil, 88% gostaria de ter autonomia para decidir como e quando usarão o escritório físico no futuro sem pandemia.

PARA A EMPRESA

Sabe-se que a pandemia do novo Coronavírus não será para sempre, mas ainda não existe uma previsão de volta à “normalidade”. De qualquer forma, diversas empresas estão vivendo a realidade do trabalho remoto e conseguiram se adaptar a isso. Mesmo diante de gastos para transferir todo o sistema de trabalho para a casa do colaborador com a aquisição de notebooks, fones de ouvidos, webcams, redes de internet, transporte de equipamentos, compra de programas e softwares para armazenamento em nuvem, as companhias agora têm a possibilidade de reduzir custos com aluguéis, contas de água, luz e outras despesas relacionadas, além de benefícios ligados ao deslocamento dos trabalhadores, como Vale Transporte e reembolso de combustível e estacionamento. Eventualmente, quando necessário um encontro presencial, escritórios compartilhados (os chamados Coworkings) podem suprir esta demanda.

A empresa está gastando mais ou menos? Isso depende de todas as decisões tomadas pela equipe administrativa. Se você, leitor, é responsável pelas finanças de uma empresa, não deixe de fazer cálculos de forma minuciosa e realizar um planejamento financeiro eficiente para o próximo período.

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PARA O TRABALHADOR

Em relação ao sentimento dos trabalhadores sobre o home office, vale a discussão sobre flexibilizar a jornada de trabalho. O colaborador depende da decisão da empresa, mas pode trabalhar no horário que se sentir mais confortável, desde que combinado com antecedência com seus superiores: o que importa é cumprir todo o calendário de reuniões proposto, bem como as horas trabalhadas. Pode não ser necessário se prender ao horário exato estipulado em contrato, sendo possível iniciar uma hora mais cedo ou mais tarde, por exemplo. O importante é que a decisão seja acordada entre o trabalhador e a empresa.

Outra vantagem para o trabalhador é se poupar do desgaste proporcionado pelo deslocamento até a sede da empresa. Grande parte dos empregados mora longe dos escritórios e precisam pegar uma ou duas conduções para chegar ao destino. A mobilidade urbana é uma questão séria especialmente nas grandes cidades, em que as pessoas chegam a gastar duas, três ou quatro horas diárias em deslocamentos casa-trabalho. Esse tempo que é perdido em transporte no modelo de trabalho presencial pode ser usado como lazer ou descanso pelo trabalhador em home office. Acordar todos os dias uma ou duas horas mais cedo para “pegar condução” já não é mais necessário em modelo home office ou híbrido.

Através das ferramentas digitais, tudo e todos estão a um clique de distância. Se o colaborador precisar falar com o Departamento de Pessoas, basta o envio de um e-mail ou ligação, além de ser possível visualizar a agenda completa do time para marcar uma reunião ou um bate-papo rápido, evitando o deslocamento até as mesas dos colegas. É interessante que as empresas se adaptem ao novo cenário, possibilitando, ao menos, um modelo híbrido para os cargos em que a prática seja possível.

CUIDADOS COM O HOME OFFICE

Apesar de muitas vantagens, as empresas necessitam de cautela quanto à adesão ao home office. Com a digitalização das relações, colaboradores podem ser acionados de maneira excessiva, não havendo um controle claro e justo. Essa prática acontece em mensagens e ligações fora do horário de trabalho e distante do ambiente de comunicação estipulado pela empresa, muitas vezes se estendendo para as redes sociais do trabalhador, que não são canais oficiais de comunicação da empresa. É fundamental que os horários combinados, mesmo em home office, sejam respeitados, de forma a garantir todas as entregas, bem como o descanso e o lazer do profissional.

Outro ponto que necessita de atenção é o ambiente: o trabalho é realizado em casa, mas em qual cômodo? É necessário um local exclusivo para a atividade, bem como o distanciamento das práticas corporativas com as de lazer. O trabalho não deve ser executado em um ambiente de descanso, como a nossa cama. Nós criamos associações mentais com o que estamos fazendo e com o lugar que estamos. Com isso, trabalhar em um local de descanso pode ser prejudicial para as nossas noites de sono já que o nosso cérebro entenderá que ali é um ambiente de trabalho.

Ainda dentro do ambiente de trabalho, o cuidado com a saúde é outro ponto de atenção. Como o home office foi implementado em diversas rotinas de forma “forçada”, os trabalhadores, muitas vezes, não possuem escrivaninhas, cadeiras confortáveis e móveis ergonômicos para atuarem em suas profissões. Além deste ponto, cada casa tem um tamanho e característica diferente: não são todos que conseguiram adequar seu ambiente para essa prática, e isso pode causar consequências. De acordo com o Hospital Presidente, problemas ergonômicos do home office improvisado poderão resultar em uma grande epidemia de dor nas costas, tendinites e artroses precoces.

A falta de contato com outras pessoas é mais uma temática com a qual o trabalhador precisa ficar alerta. Os seres humanos precisam de afeto e comunicação: um aperto de mão, um olhar e um abraço fazem toda a diferença no decorrer do dia. Com a digitalização das relações, esses gestos não são possíveis com tanta frequência. Reuniões virtuais com a câmera ligada ou um passeio no parque podem amenizar o problema, mas não substituem. Além do olhar do colaborador, as empresas também precisam ficar atentas com a falta de contato presencial. Reforços da comunicação interna para que os trabalhadores se comuniquem entre si, sem a necessidade de “vestir” o cargo corporativo, bem como a introdução de treinamentos para os novos funcionários e pesquisas de clima organizacional tornam-se necessárias.

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Será que o home office vai, de fato, “virar moda”, ou as empresas, arrependidas, voltarão atrás? No caso dos modelos híbridos, as companhias fornecerão material aos seus colaboradores para os dias de trabalho remoto? Quais serão as decisões sobre os cargos que não podem ser trabalhados dentro de casa - vendedores de loja, por exemplo, serão realocados como consultores de vendas online? O futuro ainda é muito incerto em relação a regulamentações e à preferência de empresas e trabalhadores.

Pode-se dizer que o home office é, em partes, liberdade - afinal, é possível trabalhar no conforto da sua casa, sem o sapato social ou salto-alto todos os dias. Por outro lado, o trabalhador se vê obrigado a adequar todo o seu espaço e rotina para executar suas funções, algo que nem sempre é possível, dependendo das condições de moradia e da estrutura fornecida pela empresa.

Provavelmente, o home office chegou para ficar. Cabe, agora, a ampliação dos debates entre empresa e trabalhador com os órgãos regulatórios para que essa experiência se torne proveitosa para ambos os lados.

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