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O nível de escolaridade e o mercado de trabalho

Como a diferença entre oportunidades pode segregar candidatos na hora de conquistar uma vaga?

Entrar no mercado de trabalho envolve muitas variáveis, certo? Sempre é complicado na hora de enviar o currículo, procurar as vagas, ir atrás de estágios… Porém, apesar da concorrência parecer bem grande, principalmente em tempos de crise, há certas diferenças que acabam por deixar a situação ainda mais complicada para alguns grupos que para outros.

No terceiro trimestre de 2020, a taxa de desemprego na faixa etária entre 18 - 24 anos atingiu 29,7%, mais que o dobro da média geral de 13,3% e, apesar do efeito direto da pandemia ser também considerado para o aumento brusco dessa taxa, essa faixa de profissionais já vêm sofrendo certo dano há alguns anos. Um dos principais fatores que desfalcam candidatos já no início da jornada em busca do primeiro emprego - ou até mesmo da área na qual desejam ingressar - é a diferença de escolaridade e especialização.

Aos candidatos: já passaram muito tempo desempregados, com dificuldade de encontrar uma oportunidade? Aos recrutadores: sabemos como, apesar da existência de outros aspectos importantes para uma contratação, a qualidade da educação formal costuma aparecer como critério. Naturalmente, pessoas mais especializadas, cujos currículos trazem um conjunto de cursos e mesmo educação básica em escolas de renome, costumam ser os favoritos e acabam por terem uma maior facilidade em conquistar vagas. Qual seria o grande problema disso, porém?

Apesar do sistema educacional brasileiro ter tido uma grande progressão nas últimas décadas, considerando o aumento das taxas de escolarização em todos os níveis de ensino, ainda passa longe do ideal de educação igualitário e capaz de proporcionar as mesmas oportunidades para todos os jovens quando chega a hora de adentrar o mercado ou, até mesmo, a universidade. A diferença histórica entre os sistemas educacionais público e privado e a forma como funcionam independentemente, ainda que tenham uma base comum, permanece separando-os, afetando a qualidade do ensino e conhecimento que chega aos alunos. Dessa forma, cria-se uma base de profissionais muito homogênea, com pouca variação entre classes e grupos sociais.

A raiz do problema?

O último ano destacou, novamente, desigualdades pertinentes ao acesso à educação e à qualidade de ensino. Durante os meses de pandemia - que perdurou durante todo o ano letivo de 2020 e, por enquanto, permanece condicionando as aulas de 2021 ao formato online - não foram poucas as histórias e matérias que discorreram sobre as condições, suporte e acesso disponíveis às escolas, com comparações constantes à aparente maior facilidade da adaptação da rede privada em relação à rede pública. Entretanto, essa diferença de recursos não é de hoje e nem ao menos afeta apenas o cenário pandêmico, como tem uma história muito mais longa e consequências ainda maiores.

Em primeiro lugar, vamos conhecer a história: a estrutura do ensino público no Brasil se inicia com a Constituição de 1824, que reconhecia o direito à educação primária a todo cidadão. Em 1930, foi criado o Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública, com a função de “despacho dos assuntos relacionados ao ensino, à saúde pública e à assistência hospitalar”. Um ano depois, em 1931, surgiu o Conselho Nacional de Educação (CNE), e em 1962 foi aprovado pelo Conselho Federal de Educação o primeiro Plano Nacional de Educação. Já em 1964, o Programa Nacional de Alfabetização (PNA), que tinha por objetivo promover uma alfabetização em massa, contando com a participação de diversas associações estudantis, profissionais, esportivas e organizações governamentais civis e militares para promover uma mobilização por todo o país. Porém, foi apenas em 1988 que a constituição estabeleceu, de fato, a convivência das redes pública e particular, sendo que esta última foi distinguida entre instituições com e sem fins lucrativos.

Veja também: Gamificação no RH: como trabalhar com essa tendência?

Ao mesmo tempo, a própria educação no país tem seu início na rede privada quando, em 1553, a primeira instituição de ensino foi fundada na Bahia. O ensino privado - em contrapartida ao público, que teve de crescer por etapas e conquistas - avançou de forma ininterrupta. O desenvolvimento econômico, a qualidade precária do ensino público e gratuito e a melhora crescente da qualidade e o relacionamento próximo das instituições de ensino particulares com o setor privado fizeram com que ocorresse um rápido crescimento do ensino privado em todas as fases escolares, do básico ao superior.

Apesar das relações entre ambas as redes terem se estreitado na última década com a criação de normas, decretos e ditos legais voltadas a uma base comum para o ensino privado, estas não se fizeram suficientes para uma verdadeira paridade de qualidade de ensino e preparação para a entrada no ensino superior e mercado de trabalho.

E no Ensino Superior? Tem diferença?

No Brasil, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio de 2012 a 2018 (Pnad-C/IBGE), 59% dos alunos não se formam antes dos 19 anos no Ensino Médio e apenas 7% se formam dominando os conteúdos de matemática e 22,5% na disciplina de português. Nesse mesmo levantamento, é evidenciada outra informação: do total de jovens que frequentam as escolas, cerca de 70% são do Ensino Público.

Ao observar a distribuição do orçamento do Ministério da Educação (MEC) para a educação brasileira geral (incluindo ambas as redes), porém, o resultado é decepcionante. Os recursos são muito mal distribuídos e 58% estão concentrados no Ensino Superior. As universidades, locais que recebem maior parte dos recursos do MEC, não são os espaços onde esses alunos de baixa renda e/ou de escolas públicas se encontram. Pelo contrário, as estatísticas mostram que, se um curso de graduação possui 100 vagas, 45 acabam por ser ocupadas por estudantes integrantes da parcela 25% mais rica da população.

Em um estudo publicado em 2018 pelo IBGE, apenas 36% dos alunos advindos de escolas públicas entram em uma universidade, enquanto, aos alunos de escolas privadas, esse percentual se apresenta sendo 79,2% . A desigualdade, entretanto, não para por aí, e permanece quando o recorte é feito por cor, sendo que 51,5% dos brancos com ensino médio completo oriundos da rede pública ingressaram no ensino superior em 2017, enquanto, entre pretos e pardos, esse percentual cai para 33,4%.

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Cotas e ações afirmativas - uma história recente

Muito embora tenham representado uma melhora significativa para o acesso ao ensino superior por grupos socialmente desfavorecidos , as cotas não têm uma história longa no país. Muito pelo contrário: foi apenas em meados dos anos 2000 que a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) se tornou a primeira universidade do país a estabelecer um sistema de cotas. Logo depois, em 2004, a Universidade de Brasília adotou o sistema, tornando-se, assim, a primeira instituição pública federal a aderir às cotas. A consolidação deste direito, porém, se deu só oito anos depois quando, em 2012, foi promulgada a lei nº 12.711, também conhecida como Lei de Cotas, que estabeleceu o dever de todas as instituições de ensino superior de destinar metade de suas vagas em processos seletivos para estudantes de escolas públicas municipais, federais e estaduais, sendo que, dentro da distribuição dessas vagas, levam-se também em conta critérios raciais e sociais.

As cotas são ações afirmativas aplicadas visando diminuir as disparidades econômicas, sociais e educacionais entre pessoas de diferentes classes sociais e etnias. Apesar de ser a modalidade mais discutida, as cotas não se aplicam só a pessoas negras e pardas, mas também a indígenas, pessoas advindas de escolas públicas e pessoas de baixa renda. Dessa forma, seu principal objetivo é transformar o perfil demográfico da população, capacitando mais profissionais vindos de grupos historicamente desfalcados.

Alvos de discussão até os dias de hoje, as cotas, na verdade, fizeram efeito: Segundo o Instituto de Pesquisas Aplicadas (IPEA), a taxa de matrícula entre os jovens de 18 a 24 anos - medindo o número de matriculados no nível de ensino previsto para a faixa etária - mais que quintuplicou entre aqueles que se reconheciam como negros. No Boletim Políticas Sociais: acompanhamento e análise n°19 de 1992, também do IPEA, apenas 1,5% dos jovens negros nessa faixa etária estavam na universidade. Em 2009, 17 anos depois, esse número subiu para 8,3%.

De onde viemos, onde estamos, para onde vamos

Alvo de um forte debate nas últimas décadas, a democratização do ensino parece ser a resposta para acabar, ou ao menos diminuir, a disparidade de acesso às oportunidades. Porém, para que possamos atingi-la, há um longo caminho a ser percorrido, envolvendo não só as próprias instituições de ensino, mas também o suporte do poder público, melhora nas condições econômicas e profissionais, parâmetros de qualidade educacional, currículos em comum que tragam um maior foco no desenvolvimento de estudantes, atendimento às demandas e necessidades ao que diz respeito a cada uma das redes de ensino para garantir equidade, proporcionando as ferramentas necessárias.

Dessa forma, as condições para o acesso ao Ensino Superior, tal qual para a entrada no mercado de trabalho, podem se tornar mais amplas, formando cada vez mais profissionais capacitados, ampliando o número de especialistas e pesquisadores. Em consequência disso, o aumento da demanda poderia também atrair investimentos de novas empresas e a busca por profissionais em âmbito nacional. Afinal, fomentar educação, ciência e tecnologia não só se mostra uma maneira de contribuir para uma única área do país, mas também um plano a longo prazo que possibilita e atrai a entrada de capitais. O caminho contrário, no entanto, empobrece a capacidade de geração de mão de obra em âmbito nacional, e a falta de investimento acaba por não proporcionar retornos positivos, causando a evasão de capitais.

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